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No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo!

Você certamente já assistiu à preparação da seleção brasileira para ir à Copa. Os atletas escolhidos seguem para um período de “concentração” em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Ali, além de uma refeição balanceada, eles estudam aos vídeos sobre os futuros adversários e, depois, ficam horas e horas no campo treinando as possíveis táticas sobre como vencer as defesas.
Isso acontece quando a competição é de times, como o voleibol, o basquete e o handebol. Quando se trata do atletismo, por exemplo, 200 metros com barreiras, o atleta passa meses e meses treinando para, em questão de segundos, ter a recompensa ou o fracasso depois de tanto tempo de preparação.
São Paulo, na Epístola aos Coríntios, comparou toda a sua pregação com uma final de atletismo. Segundo ele, no estádio, todos correm, mas um só ganha o prêmio? “Todo atleta se impõe todo tipo de disciplina. Eles assim procedem, para conseguirem uma coroa corruptível”. Paulo diz que os cristãos buscam uma coroa incorruptível, mas, para conquistá-la, não corre às tontas ou luta como se estivesse golpeando o ar. Ao contrário, tem domínio sobre o próprio corpo, para não acontecer que, depois de ter proclamado a mensagem aos outros, ele mesmo seja reprovado (1Cor 9,24-27). Paulo ainda nos alerta para o fato de que o combate tem regras: “o atleta, na luta esportiva, só recebe a coroa, se lutar segundo as regras” (2Tm 2,5).
O evangelho deste 1º Domingo da Quaresma, de Lucas 4,1-13, fala das tentações que Jesus teve no deserto. As tentações são como as barreiras colocadas diante do atleta chamado Jesus. Ele venceu todas elas seguindo as regra ditadas pela escuta e pela prática da Palavra de Deus.
Este evangelho é fruto da experiência da comunidade cristã, que, aos poucos foi crescendo na consciência tanto da divindade quanto da humanidade de Jesus. Como ser divino, Jesus é o Filho de Deus enviado ao mundo para fazer a vontade do Pai (Jo 6,38); como homem, Ele não quis ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano (Fl 2,6-7), menos no pecado.
Foi como homem que Jesus foi tentado logo depois do seu batismo. Segundo os evangelistas, Ele estava cheio do Espírito Santo, e foi impelido pelo mesmo Espírito para o deserto. Ali, jejuou durante quarenta dias e quarenta noites. Para Lucas, foi quando Jesus teve fome e, com ela toda a sua fragilidade. Jesus, no entanto, diante da fraqueza do corpo teve presença de espírito para não se deixar cair nas ciladas da carne.
As tentações foram, portanto, colocadas justamente quando Jesus devia reunir todas as suas forças para a arrancada final na sua corrida contra a fome e as fraquezas humanas. Todo o tempo passado em retiro no deserto iria culminar justamente naquele momento.
Lucas não faz nenhum suspense. Vai direto ao essencial. A primeira tentação de Jesus é resolver o problema da fome. O estômago está roncando e Jesus olha ao seu redor e somente vê areia e pedras. O seu lado humano fala que Ele tem o divino dentro de si. Vem a tentação de resolver tudo como que por mágica. Para isso, basta pegar a pedra e transformá-la em pão. No entanto, o lado divino de Jesus age como barragem de contenção da natureza humana. Por isso, Ele se lembra do que a Escritura diz: “Não só de pão vive o homem”.
A segunda tentação é decorrência da anterior. Se ficar satisfeito, Jesus poderá exercer o domínio sobre todos os povos da terra. Mesmo na fraqueza física em que se encontrava, Jesus recupera a consciência e recobra as forças para não cair. Mais tarde, dirá diante de Pilatos, seu reino não é deste mundo (Jo 18,36). Nessa tentação é possível perceber a malícia do demônio que existe fora e dentro do ser humano que faz de tudo neste mundo para ser louvado pelos homens. Jesus não se deixa seduzir. Baseado nas Escrituras, diz: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás”.
A terceira tentação também é decorrente das outras. Jesus é instado a pular do alto da torre do Templo de Jerusalém. Na verdade, quem pode transformar o que tem diante de si em pão, quem tem o poder sobre o mundo, pode também tentar o próprio Deus. Essa tentação levaria Jesus a desprezar seu próprio Pai. Os anjos do céu o protegeriam, porque estavam a seu serviço, mas essa proteção serviria apenas para alimentar o ego de Jesus, mostrando que Ele tinha o poder. Vendo que não podia caminha no mundo seguindo apenas os desejos humanos, Jesus teve a consciência de que ninguém neste mundo, nem mesmo Ele, pode tentar o Senhor, nosso Deus.
Forte ou fraco, mesmo dançando sorrindo à beira do abismo, Jesus dá uma lição para todos os que o desejam segui-lo. Ele descobriu na Palavra de Deus a força para superar toda e qualquer tentação. Em outras palavras, Jesus tinha poder para providenciar o próprio alimento, podia servir aos desejos deste mundo e também tentar a Deus. No entanto, preferiu seguir o que diz a Palavra de Deus. Venceu todas as tentações porque se entregou nas mãos de Deus o seu sustento, a adoração e a sua segurança.
Pelo que se pode notar, Lucas deixa claro que Jesus superou as três barreiras que a sua humanidade colocou no seu caminho. Como um atleta, ele não saltou pura e simplesmente sobre os obstáculos. Tampouco se deixou contaminar por eles. Ao contrário, o retiro e a concentração no deserto o prepararam para vencer todas as táticas dos inimigos. É como num jogo de futebol: enquanto um atacante atrai dois defensores o outro procura os espaços vazios para seguir em direção ao gol. E Jesus fez isso com a finalidade de atrair para si todas as fraquezas dos seres humanos a fim de que eles possam correr para o único gol que realmente salva.
No fim do evangelho de hoje, Lucas diz que, após todas as investidas sem resultado contra Jesus, o demônio se retirou para retornar no momento oportuno. De fato, enquanto Jesus continuava com sua vida de anunciador da mensagem do Pai ao mundo, seu poder foi crescendo, a ponto de expulsar todos os espíritos malignos e demoníacos que se arremetiam contra as pessoas. Mas chegaria o momento em que as forças deste mundo também iriam aparentemente derrotar Jesus: Ele seria entregue nas mãos dos homens e os sumos sacerdotes o fariam sofrer até à morte.
A partir deste cenário, nós nos voltamos para a proposta deste primeiro domingo da Quaresma. A Igreja nos faz perceber que o episódio das tentações de Jesus serve para nos colocar em atitude de atenta escuta dessa Palavra. Essa palavra deve estar cada vez mais próxima daquele que a escuta a fim de se tornar o instrumento fundamental do diálogo entre o ser humano e Deus.
No tempo da quaresma, é importante redescobrir a centralidade da Palavra de Deus intensificando a reflexão dela na nossa própria vida, uma reflexão que parte sempre da memória das ações salvadoras de Deus para com o seu povo que se abre à certeza da proximidade de Deus nos acontecimentos históricos.
As tentações de Jesus confirmam essa proximidade de Deus da experiência humana da dúvida e da confusão na nossa escolha entre o bem e o mal. Jesus tentado no deserto manifesta a plena solidariedade de Deus para com a fraqueza humana a ponto de viver na nossa pele o drama da escolha entre as bajulações e seduções de Satanás e a fidelidade a Deus, entre as mentiras que subvertem o projeto de Deus e a confiança diante do mistério divino.
Para nós, fica a lição de que nós somos os atletas de Jesus. Na nossa vida, há muitas barreiras, isto é, tentações, sobre as quais nós devemos passar. O segredo para vencer a corrida é conhecer a Palavra de Deus, que é Jesus. Se Ele é homem e Deus, nós, com a Palavra de Deus, temos a sua força para não nos deixarmos seduzir pelas ciladas do inimigo. Mesmo assim, precisamos estar preparados, porque as forças deste mundo não se cansam de esperar pelo momento oportuno para, sempre de novo, nos atacar.
Como você reage diante das tentações que a vida lhe oferece? Quer soluções fáceis? Jesus nos ensina a trilhar por outro caminho. No fim Ele diz: “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16,33).

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